Reflexão Teórica de “A noite escura da Alma” – experiência para mostrar a nossa Humanidade. (parte 1)
![]() |
| Imagem: Pinterest |
“O homem não se descobre enquanto vive no conforto; ele só se revela quando é forçado a reconstruir-se das cinzas” – Carl Young.
1.
Definição clássica de “Noite
Escura da Alma”
A
“noite escura da Alma” é uma metáfora de uma experiência
mística que obscurece a consciência e traz sofrimento.
Tendo
em conta o imaginários dos povos, e ,mais concretamente na tradição
grega, a “Noite” era o nome da Deusa que personificava as trevas
superiores e é representada por uma figura feminina com um manto
escuro, que percorre o céu, enquanto o seu irmão Érebo simbolizava
as trevas inferiores. Já na tradição judaíco-cristã, a noite tem
um sentido pejorativo, negativo mas também positivo. No Génesis,
denomina-se as trevas como sendo inferior à luz:
“Chamou
Deus a Luz, Dia, e as trevas, Noite.” (1.4-5)
Já
o aspeto positivo, na Bíblia, a noite é vista como um momento de
inspiração divina e relacionada com a sabedoria. E, podemos trazer
a simbologia da coruja, um pássaro notívago, que representa a
filosofia, o saber e a clarividência.
Na
poesia, a noite é geralmente descrita como o tempo propício ao
romance, quando acabam as atividades laborais do dia e o ser humano
pode ir livremente à procura do outro.
“Ó
noite amiga! Ó noite semelhante
A todos os
meus beijos de amante!
A todos os meus
êxtases de amor!”
(excerto do poema de “Noite” –
Florbela Espanca)
Já
na esfera psíquica, a noite significa a face oculta da consciência,
o inconsciente que, durante o sono, geralmente à noite, vem ao de
cima através de símbolos que expressam não só desejos, mas também
sabedoria, a criatividade e a intuição.
Na
teologia mística1,
a noite foi aos poucos adquirindo o sentido de estado de consciência
em relação à Divindade. Os místicos alemães2
do séc. XIV diziam “Deus habita nas trevas” pois ninguém
conseguia ver Deus mas atribuímos qualidades humanas a Deus. Esta
teologia baseia-se num conhecimento experimental – contemplando
Deus implica o despojamento do ego, visando a união da alma com
aquele que
está para
além de qualquer conceito,
para além do que podemos afirmar, pensar, imaginar, definir.
A
esse despojamento do ego, os místicos alemães chamaram de “noite
escura”, expressão
que foi introduzida pelo frade carmelita espanhol São João da Cruz,
no seu poema escrito “La noche oscura del alma” no século XVI,
Neste poema, fala-nos duma jornada onde a escuridão representa as
dificuldades da alma em desapegar-se do mundo e atingir a luz da
união com o Criador.
É possível explicar a jornada
mística com a busca do Eu profundo, a dimensão expandida da
consciência, para além do pequeno ego, de modo que a consciência
individual se transforme em universal ou cósmica.
Os místicos alemães, no entanto,
consideram a ampliação da consciência como a união da alma com
Deus.
Segundo São João da Cruz, a noite
escura traz a mortificação dos sentidos e do espírito, por isso
produz abatimento, esgotamento mental e fadiga mas necessário para o
ressurgimento de um indivíduo novo.
pela secreta escada, disfarçada,
— ó ditosa ventura! —
em trevas e em celada,
estando já a minha casa sossegada.”
pela secreta escada, disfarçada,
— ó ditosa ventura! —
em trevas e em celada,
estando já a minha casa sossegada.”
(Excerto de “A Noite Escura” – São João da Cruz )
É uma noite de purificação dos vícios nos quais incorrem os que já se exercitam no caminho espiritual. Mas para ele, é um caminho necessário para o reencontro com a luz e a união com Deus.
2. Explicação
do conceito - Interpretações
psicológicas modernas
Na
Psicologia, a “noite escura da alma” é um período de crise
existencial e espiritual, caracterizado por sentimentos de vazio,
desespero, questionamento e perda de sentido. É visto como uma
oportunidade para o crescimento e transformação pessoal. Podemos
dizer que é um processo de “poda” interior que pode levar a uma
maior clareza, autoconhecimento e reconexão com o próprio ser.
O
sistema psicológico é desafiado: crenças, valores e identidades
são questionados.
Carl
Gustav Jung reinterpreta este conceito dentro da Psicologia. Via a
“noite escura” como um encontro inevitável com a sombra – as
partes de nos mesmos que reprimimos ou negamos (traumas, medos e
projeções internas). Esse confronto doloroso pode ser, na verdade,
o portal para a individuação, o processo de nos tornarmos inteiros
e autênticos, integrando o inconsciente e o consciente.
Este
processo de individuação de Jung implica, então, um confronto com
a sombra no qual surge sofrimento psicológico e começam a
manifestar-se desculpas, medos, racionalização e fuga. Aqui, o ego
teme perder o controlo. E, depois, há que reconhecer padrões
emocionais e comportamentais repetidos e como isso implica nos
relacionamentos. Há que perceber o diálogo entre o consciente e o
inconsciente que surge muitas vezes através de imagens, fantasias,
símbolos e sonhos. Jung fala-nos da imaginação ativa, um método
capaz de estabelecer este diálogo, equilibrando aspetos reprimidos
ou negados da psique. A imaginação ativa pode ser um canal de
expressão da noite escura, assim como os sonhos, a meditação e a
criatividade, ajudando a traduzir o sofrimento em significado.
A
escritora Clarissa Pinkola Estés, no seu livro “As mulheres que
correm com os lobos” fala-nos sobre os momentos de perda e descida
à escuridão como parte dos ciclos naturais da alma feminina.
Segundo ela, é nesses períodos de recolhimento e aparente
destruição que as mulheres renascem mais inteiras, selvagens e
conectadas à nossa essência instintiva.
Estés
encoraja a mergulhar nos contos e mitos, identificando os elementos
que representam a sombra e a escuridão pessoal. Este processo é uma
forma de imaginação ativa jungiana: dialogar com símbolos internos
para emergir transformada.
Podemos
dizer que o que para São João da Cruz era “mortificação e
purificação”, para Estés é “gestação de forças instintivas
e criativas.”. Para Estés a noite escura é psicológica e vital,
enquanto para São João da Cruz é espiritual e mística, mas para
ambos a escuridão é necessária; a crise leva ao renascimento e
expansão; e a passagem exige coragem, introspeção e enfrentamento
de conteúdos internos.
“Está
ali uma escada.
A
escada esteve sempre ali
Inocentemente
pendurada
no
costado da escuna...
Desço...
Venho
explorar os destroços...
Venho
ver os danos sofridos
Venho
ver os tesouros restantes...”
(Diving Into the Wreck, Adrienne Rich
@ página 336 do livro “As Mulheres que Correm com os Lobos de
Clarrissa Pinkola Estés. Editora Marcador. Lisboa)
Também
o autor Eckhart Tolle, em “O Poder do Agora”, lembra que o
sofrimento espiritual profundo pode ser o início do despertar da
consciência. Quando o sentido externo da vida se desfaz, abre-se
espaço para uma presença mais pura, livre da identidade baseada no
medo e na dor.
O
autor, que experienciou na sua vida uma grande depressão, refere que
sem atravessar o vazio emocional não é possível a entrega ao Ser.
Tolle formulou o termo “corpo de dor” que se refere a mochilas
emocionais, com as quais não nos devemos identificar, mas podemos
estar simplesmente na presença e observar. Mas isto pode ser
praticamente impossível. Por isso, ignorar o “corpo de dor” ou
mesmo estar na presença dele quando há intenso sofrimento não são
factíveis nem apoiam o processo de despertar, que exige passar
muitas vezes pela “noite escura da alma”.
Para
Tolle, a dor intensa ou o vazio existencial surge quando o ego se
dissolve ou se confronta com a ilusão da separação. As crises,
para ele, são pontos de atenção absoluta que podem levar ao
despertar da consciência. A aceitação
radical do momento presente
é a chave para atravessar crises.
“A
dor que não é aceita, transforma-se em sofrimento psicológico.” –
Eckhart Tolle, O
Poder do Agora
Perante
o descrito, concluo que estudar a noite escura da alma de forma
interdisciplinar permite integrar
psicologia, espiritualidade, literatura e neurociência,
oferecendo um olhar rico,
profundo e útil
sobre as crises humanas e o potencial de transformação que elas
carregam.
1A
teologia mística
é a via espiritual que busca conhecer Deus não através de ideias,
mas através da experiência interior, muitas vezes descrita como
união, despojamento, silêncio ou “noite”. Podemos dizer que é
a “teologia do coração” — não da mente.
Baseia-se
na convicção de que Deus é inefável — não
pode ser totalmente compreendido por palavras ou conceitos.
2Meister Eckart (c. 1260–1327); Johannes Tauler (c. 1300–1361); Heinrich Suso (c. 1295–1366); Margareta Ebner; Christina Ebner.
.jpeg)


Comentários
Enviar um comentário