A ilusão de que “connosco não acontece”.
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O que se passou ontem em Portugal não pode ser lido como um episódio isolado.
Tal como o que acontece hoje em várias partes do mundo, é antes um sintoma.
Vivemos um tempo em que a democracia é apresentada como garantida, quase automática, como se fosse um estado permanente e não um processo vivo, frágil e exigente. Mas a história — e o presente — mostram-nos o contrário: a democracia nunca está assegurada. Ela precisa de consciência, ética e responsabilidade coletiva.
Margaret Atwood, na sua obra A História de Uma Serva, nunca escreveu sobre o futuro. Ela própria o afirma: escreveu sobre padrões que já aconteceram na história humana, repetidas vezes, em diferentes culturas, sob diferentes nomes.
A força perturbadora da obra não está na imaginação, mas no reconhecimento.
Reconhecemos ali mecanismos reais: a normalização da perda de direitos, o controlo gradual, a substituição do pensamento crítico por slogans simples, o medo usado como ferramenta política.
O mais inquietante não é a distopia em si.
É a frase que surge tantas vezes, em diferentes épocas:
“Isto aqui nunca chegaria a acontecer.”
O que vemos hoje no mundo — polarização extrema, discursos autoritários a ganharem espaço, desinformação massiva, banalização da violência simbólica e real — não é novo.
É cíclico.
A antropologia ensina-nos que as sociedades passam por ciclos de expansão e contração, de abertura e fecho, de consciência e regressão.
Quando o medo domina, a tendência humana é procurar soluções simples para problemas complexos — mesmo que essas soluções custem liberdade, diversidade e ética.
A história não se repete de forma idêntica.
Ela rima.
Existe um perigo silencioso que atravessa todas estas fases: a ignorância coletiva.
Não a ignorância de quem não teve acesso, mas a de quem não quer questionar.
De quem delega o pensamento.
De quem consome narrativas prontas sem curiosidade, sem verificação, sem reflexão.
Um povo que não questiona torna-se facilmente manipulável.
Quando se abdica do pensamento crítico, alguém pensa por nós — e raramente com intenções éticas.
A ignorância não é neutra.
Ela cria terreno fértil para o autoritarismo, para a exclusão do “outro”, para a aceitação de ideias perigosas disfarçadas de soluções práticas.
Como diria Jung, aquilo que não é tornado consciente governa-nos a partir da sombra.
Na psicologia analítica, a sombra representa tudo aquilo que não queremos ver em nós — individual e coletivamente.
Quando uma sociedade se recusa a olhar para a sua sombra, ela projeta-a: cria inimigos externos, bodes expiatórios, narrativas simplistas de bem versus mal.
O problema não é ter sombra.
O problema é não a reconhecer.
Quanto mais reprimida, mais violenta se torna.
E podemos falar também da filosofia do Yoga, claro! A ética do Yoga nunca foi sobre evasão espiritual.
Pelo contrário: é profundamente política no seu sentido mais essencial.
Ahimsa (não-violência), Satya (verdade), Svadhyaya (autoestudo) e Aparigraha (não-apego) exigem consciência, responsabilidade e ação alinhada.
Não se trata de “ficar zen” enquanto o mundo arde, mas de agir com lucidez, sem cair no medo nem na indiferença.
O Yoga ensina-nos que tudo começa no interior, sim — mas não termina aí.
Consciência sem ação é espiritualidade vazia.
A democracia, tal como o equilíbrio interno, dá trabalho.
Exige atenção, presença, questionamento constante.
Não é confortável.
Nunca foi.
Tal como o crescimento pessoal, ela passa por momentos de confronto, de desconforto e de revisão profunda.
Ignorar isso é abrir espaço para repetir ciclos que já conhecemos demasiado bem.
Talvez o maior erro seja acreditar que estas questões são “demasiado grandes” ou “demasiado distantes” da nossa vida individual.
Não são!
A forma como pensamos, escolhemos, informamo-nos e dialogamos constrói — ou fragiliza — o tecido coletivo.
A história não acontece só nos livros.
Ela acontece agora.
E a pergunta que fica não é apenas política, psicológica ou espiritual.
É profundamente humana:
Estamos dispostos a questionar, ou preferimos o conforto da ignorância, com todas as suas consequências?
“Nada muda de um dia para o outro. Numa banheira a aquecer lentamente, morrerias antes de perceber que está quente.” -— Margaret Atwood


