Quando te cansas de ser quem és - reflexão sobre a importância da "morte e renascimento"
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“Da nossa vida, em meio da jornada / Achei-me numa selva tenebrosa / Tendo perdido a verdadeira estrada” - Divina Comédia - Dante
Sentes-te cansada dia após dia, noite após noite. Pensas que estás doente, que tens algum problema patológico.
Embora o cansaço físico e mental seja um sintoma normal e frequente, este resolve-se e, normalmente, voltas às atividades com novo ânimo.
Mas o cansaço pode ser o gatilho ou um dos sintomas de uma crise de identidade.
O que é isto?
A crise de identidade (existencial/ profissional) é um questionamento profundo sobre o propósito, valores e o próprio “eu”. Mesmo que descanses, a sensação de vazio ou de não te reconheceres persiste, pois afeta a autoimagem e o significado da tua vida ou carreira. Sentes uma falta de propósito, desânimo, ansiedade e insegurança. Crenças e valores que antes te apoiavam na tua caminhada deixam de fazer sentido, e necessitas de estruturar novas bases sólidas para seguir em frente.
A falta de motivação e a baixa autoestima também são fatores que podem desencadear uma crise existencial, assim como também a perda de algo ou de alguém importante.
A crise de identidade, que pode ser difícil e prolongada, exige uma busca por novos significados e um redesenho da própria vida.
Normalmente atribuímos à adolescência a época da crise de identidade. A juventude é um período em que te encontras a ti mesma, defines-te em oposição aos teus pais e exploras uma série de identidades possíveis. Mas esta crise de que falo é muito diferente da que muitos adolescentes passam na puberdade.
Os adultos passam pela mesma ansiedade. Quando ela se manifesta na forma de uma crise de meia-idade, a ansiedade pode levar as pessoas a fazerem escolhas de vida drásticas e repentinas, que trazem profundas consequências.
E agora lê a frase em cima de Dante e reflete.
Ele descreve a experiência humana comum: caminhar até chegar à metade da vida e descobrir que se está perdido. Talvez acordes de manhã a questionares-te se a tua vida vale a pena ser vivida. Ou podes acordar a perguntar quem és tu.
Tu podes perder o teu Self(1) de muitas maneiras. E mesmo quando o descobres ou crias a tua própria identidade, ainda precisas de validação externa e, portanto, precisas de te expressar a ti própria. És de ti e pertences a ti mesma, mas mesmo assim a tua identidade requer o reconhecimento de outras pessoas. E aqui surge uma tensão. Toda a sociedade e nós próprios somos formados pela lógica da economia da atenção, sendo isto uma medida de valor.
E como a identidade requer reconhecimento e afirmação em público, tu nunca podes parar de te expressar. Nunca é o bastante. E, todos ao teu redor, fazem o mesmo. Todos estão nas suas jornadas privadas de autoconhecimento e autoexpressão.
Assim, a crise de identidade é uma forma de amadurecimento e crescimento. No entanto, este enfrentamento nem sempre é simples, o que pode afetar o teu equilíbrio emocional.
Uma crise emocional abala-te a autoestima e autoconfiança e, se não trabalhada precocemente, o quadro pode-se agravar, causando perturbações psicológicas, como depressão, ansiedade, stress. Em crises mais agudas, podes acabar por te refugiares no uso de álcool e de drogas.
Posso referir que esta fase profunda de desorientação, vazio e questionamento existencial, onde o ego antigo se desfaz, é a fase inicial da noite escura da Alma. Há um processo de “morte e renascimento”. É aqui que a Alma passa por uma escuridão, um deserto interior, sente-se desconectada. A superação envolve muita paciência, introspeção, aceitação e trabalho do autoconhecimento, permitindo que a sombra revele a luz interior, levando a uma transformação duradoura.
Vais passar por momentos de profunda solidão, pois a mente/ a Alma pede pausa, silêncio e interioridade. Isto nem sempre é depressão ou doença. É uma travessia, chamada para rever prioridades, aceitar vulnerabilidades e aprender a sustentar a vida sem os apoios habituais. Esse “vazio” é doloroso, não é fácil, mas é muito fértil quando acolhido com paciência.
Nestes períodos, há um processo de ressignificação, de purificação do coração.
A noite escura da Alma, por mais longa que pareça, nunca é definitiva. Sais do “modo caverna”. O amanhecer chega. A luz chega depois de enfrentarmos a sombra. A vida recupera a cor, a fé reencontra consolo e a mente descobre novos significados.
É parte do caminho humano e também do caminho espiritual, onde transformamos dor em crescimento, como um processo de metamorfose de "casulo" (2).
A descida não é o fim mas o início; é a base para a construção de um novo olhar, quando transformas o sofrimento em aprendizagem e crescimento.
Todos estes mergulhos, todos estes acontecimentos são necessários para a autorrealização e podem acontecer várias vezes na tua vida.. Mas há que compreender e aceitar que, no fundo é onde ficam as raízes vivas da psique.
“Chegar ao fundo do poço, é chegar ao terreno da semeadura.” - Clarissa Pinkola Estés
Trata-se de uma oportunidade de fazer viver a força potencial que está adormecida em ti e vires a viver aquilo que realmente és, sem julgamento, sem imposição da sociedade, livremente.
Há que compreender que nem todo o sofrimento é patológico. O problema surge quando todo este estado é lido apenas como falha química.
Do ponto de vista da psicologia jungiana, o risco não é o medicamento em si, mas o enquadramento exclusivo:
“Algo está errado contigo.” em vez de “Algo em ti está a tentar organizar-se.” Aqui a dor perde o seu sentido simbólico. O medicamento pode ser apenas um apoio temporário mas muitas vezes torna-se solução definitiva e interrompe o processo de individuação antes que ele se complete.
Muitas vezes, o sintoma é mascarado e ao silenciá-lo sem o escutar pode fazer o conflito voltar depois, às vezes mais forte, mais deslocado. No entanto, isto não significa que tu devas aguentar tudo, sofrer para evoluir ou rejeitar ajuda médica. Não!
A noite escura da Alma não quer eficiência, quer transformação.
A terapia/ coaching faz algo raro hoje em dia: autoriza a complexidade, ou seja, “vamos entender o que é isto que queres” e não apenas “como fazer isto parar.”
A solução fácil promete o alívio rápido e o retorno à funcionalidade. Mas já vimos que estas crises pedem a travessia. Reconhecer que há algo além é um ato de coragem psíquica.
“Enquanto não tornares consciente o inconsciente, ele vai conduzir a tua vida e chamar-lhe-ás destino.” - Carl Jung
O trabalho interno impede que a vida vire uma repetição inconsciente. Tu mudas!
A terapia, o autoconhecimento e o trabalho interno não são luxo, nem fraqueza. São atos de maturidade, formas de escuta da Alma e compromissos com uma vida mais verdadeira. Não substituem medicação quando ela é necessária. Mas impedem que ela vire a única resposta.
Conclusão:
Uma crise de identidade não é sinónimo de cansaço diário, nem pode ser reduzida ao desgaste constante da vida moderna. O cansaço pede descanso; a crise pede escuta. Confundir uma com a outra é um dos erros mais comuns — e mais custosos — do nosso tempo.
O cansaço quotidiano nasce do excesso: de tarefas, estímulos, cobranças. Ele melhora com pausa, sono, férias, reorganização. Já a crise de identidade surge quando o modo de vida perdeu sentido, quando os papéis já não sustentam quem a pessoa se tornou por dentro. Nesse caso, insistir apenas em repouso ou em soluções rápidas não resolve — às vezes aprofunda o vazio.
Quando uma crise de identidade é tratada como mero esgotamento:
o sintoma é silenciado, mas a pergunta permanece;
a pessoa “funciona”, mas não se reconhece;
o mal-estar retorna, muitas vezes em novas formas.
Dar devido valor a essas crises significa reconhecer que elas não são falhas pessoais, mas sinais de transição psíquica. Elas indicam que algo essencial precisa ser revisto: escolhas, vínculos, valores, imagens de si mesmo que já não correspondem à realidade interna.
Ignorá-las ou apressar a sua resolução empobrece a vida. Escutá-las, ao contrário, pode ser profundamente transformador. A crise interrompe o automático, quebra a adaptação cega e obriga a pessoa a perguntar: “quem sou eu agora?” — uma pergunta incómoda, mas fundadora.
Por isso, as crises de identidade exigem tempo, acompanhamento, trabalho interno. Não pedem apenas alívio, pedem significado. Quando são respeitadas, tornam-se pontos de virada; quando são negadas, tendem a se repetir.
Em última instância, dar valor a essas crises é um ato de maturidade. É escolher não apenas sobreviver ao dia seguinte, mas construir uma vida que faça sentido para quem se é — e não apenas para o que se espera que sejamos.
“Talvez o que te esgota não seja o ritmo da tua vida, mas o esforço de seres coerente com uma versão antiga de ti mesma.” - Inês Gaya
(1) Serve para designar a pessoa enquanto lugar de atividade psíquica, ou seja, o self seria o produto de processos dinâmicos que asseguram a unidade e a totalidade do sujeito (Donald Winnicott)
(2) O casulo simboliza um momento de introspeção e recolhimento, em procuramos autoconhecimento e significado mais profundo para as nossas ações. Quando nos permitimos esse processo, finalmente emergimos como "borboletas", plenos, conscientes da nossa essência e preparados para partilhar a nossa transformação com o mundo. Este ciclo de metamorfose inspira a ideia de que a evolução pessoal e espiritual é inevitável para aqueles que se permitem passar por mudanças.


