Quando o caminho não é linear - Reflexões sobre escolhas, desvios e o que chamamos de “normal”
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Desde 2004 que trabalho de forma independente.
Quando olho para trás, percebo que o meu percurso profissional não foi uma linha reta.
Foi mais parecido com um mapa de viagens.
Um mapa cheio de estradas secundárias, desvios inesperados, alguns becos sem saída… e também paisagens que nunca teria encontrado se tivesse seguido sempre pela estrada principal.
Ao longo destes anos houve momentos em que tive a certeza de que tinha finalmente chegado ao lugar certo.
O projeto certo.
A direção certa.
E depois, algum tempo mais tarde, a vida mostrava-me outra coisa.
Percebia que aquele caminho, afinal, não era o destino final.
Era apenas mais uma etapa.
E lá voltava eu a abrir o mapa.
Vivemos numa sociedade que valoriza muito a ideia de um percurso claro e linear.
Escolher uma profissão.
Construir uma carreira.
Subir degraus.
Mas a experiência real da vida raramente é assim.
A vida é feita de mudanças, reavaliações, perdas, descobertas inesperadas.
Às vezes pensamos que nos perdemos…
quando na verdade estamos apenas a descobrir que o caminho que estávamos a seguir já não nos corresponde.
Recentemente voltei a confrontar-me com essa realidade.
Há cerca de sete meses tinha assinado um contrato que, à primeira vista, parecia alinhado.
Tudo corria bem.
A colaboração parecia estável.
Até que, de forma inesperada, foram surgindo novas regras.
Regras que mudavam o equilíbrio inicial.
E então surgiu novamente aquela pergunta antiga, que muitas pessoas que trabalham de forma independente conhecem bem:
O que fazer agora?
Aceitar as regras impostas?
Criar novas estratégias?
Procurar outro caminho?
Ou reconhecer que talvez este seja apenas mais um daqueles momentos em que a vida nos pede para reavaliar a rota?
Estas situações também nos fazem refletir sobre algo maior.
Vivemos numa sociedade que muitas vezes naturaliza formas de funcionamento profundamente desequilibradas.
Pressa constante.
Competição permanente.
Instabilidade mascarada de flexibilidade.
O que hoje é apresentado como normal, muitas vezes revela sinais claros de um sistema que não está verdadeiramente saudável.
O filósofo e psicólogo social Erich Fromm escreveu algo que continua profundamente atual:
“Uma sociedade doente pode produzir indivíduos que parecem perfeitamente adaptados.”
Ou seja, aquilo que é considerado “normal” dentro de um sistema não é necessariamente saudável.
Às vezes adaptar-se totalmente a determinadas dinâmicas significa apenas aceitar silenciosamente estruturas que não respeitam o equilíbrio humano.
Esta reflexão leva-nos a uma questão importante:
O que é realmente normal?
E o que é patológico?
Na psicologia e na filosofia social existe uma longa discussão sobre este tema.
Em muitos casos, aquilo que chamamos de normal é simplesmente aquilo que se tornou habitual dentro de uma determinada cultura ou sistema.
Mas habitual não significa necessariamente saudável.
Por vezes, questionar o caminho não é sinal de instabilidade.
É sinal de consciência.
Quando olho para trás, vejo que cada um dos momentos em que pensei ter “errado o caminho” acabou por me ensinar algo essencial.
Aprendi a recomeçar.
Aprendi a escutar mais profundamente aquilo que faz sentido para mim.
Aprendi que perder-se faz parte da viagem.
E talvez o verdadeiro erro não seja mudar de direção.
Talvez o verdadeiro erro seja continuar num caminho que já sabemos, no fundo, que não é nosso.
Hoje vejo o percurso de outra forma.
Não como uma estrada reta.
Mas como um território vivo, em constante transformação.
Um mapa que se redesenha à medida que caminhamos.
Às vezes avançamos.
Outras vezes voltamos atrás.
Outras vezes paramos para pensar.
E tudo isso faz parte da viagem.
Porque no fundo, mais do que chegar rapidamente a um destino, o verdadeiro desafio talvez seja este:
manter a coragem de continuar a procurar um caminho que seja verdadeiro para nós.
Não é fácil mas desistir não é a solução!
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