A Inveja: O Que Ela Pode Revelar Sobre Nós

 

Imagem: Hisham Echafaki no Pinterest

A inveja é uma das emoções mais antigas e universais da experiência humana. No entanto, é também uma das mais difíceis de admitir.

Poucas pessoas dizem abertamente: "Tenho inveja." Preferimos chamar-lhe frustração, crítica, irritação ou injustiça. Mas a verdade é que todos, em algum momento da vida, já sentimos inveja.

A questão não é sentir ou não sentir inveja. A questão é compreender aquilo que ela nos quer mostrar.

A inveja surge quando vemos em alguém algo que desejamos para nós. Pode ser uma qualidade, uma relação, uma profissão, uma condição financeira, uma forma de viver, uma aparência, uma liberdade que sentimos não possuir.

À primeira vista parece que o problema está na outra pessoa. Mas será mesmo assim?

Para Carl Jung, aquilo que nos afeta profundamente nos outros raramente diz respeito apenas aos outros. Frequentemente revela algo sobre nós próprios.

Jung acreditava que grande parte da nossa vida psíquica permanece inconsciente. Existem aspetos da nossa personalidade, desejos, talentos, necessidades e potenciais que não reconhecemos ou que aprendemos a esconder. A este conjunto chamou Sombra.

A Sombra não contém apenas aquilo que consideramos negativo. Contém também capacidades, sonhos e qualidades que nunca desenvolvemos ou que reprimimos ao longo da vida. Por isso, quando sentimos inveja, pode estar a acontecer algo muito interessante: aquilo que vemos no outro pode ser um reflexo de algo que existe em nós e que ainda não foi reconhecido.

Talvez não invejemos verdadeiramente a pessoa. Talvez invejemos aquilo que ela representa. A mulher que tem coragem para mudar de vida. A pessoa que vive com autenticidade. Quem parece ter paz interior. Quem segue o seu próprio caminho sem procurar aprovação constante. Nesse sentido, a inveja pode funcionar como uma bússola. Pode indicar uma direção que a nossa alma deseja explorar. Uma possibilidade que ainda não tivemos coragem de viver.

Vivemos numa época onde a comparação acontece diariamente. Nas redes sociais observamos conquistas, viagens, relacionamentos e momentos felizes. Mas estamos a comparar os bastidores da nossa vida com os momentos mais visíveis da vida dos outros. E isso alimenta uma sensação constante de insuficiência. Quanto mais nos comparamos, mais nos afastamos do nosso próprio caminho. Porque deixamos de perguntar: "O que faz sentido para mim?" E passamos a perguntar: "Porque não sou como aquela pessoa?"

A filosofia do Yoga oferece uma perspectiva muito interessante sobre este tema.

O Yoga não nos convida a olhar para fora. Convida-nos a voltar para dentro, a observar a mente, os desejos, as comparações, os julgamentos, sem nos identificarmos completamente com eles.

Nos Yoga Sutras encontramos o conceito de Santosha, frequentemente traduzido como contentamento. Não significa resignação. Não significa desistir dos nossos sonhos. Significa aprender a reconhecer valor naquilo que já existe na nossa vida enquanto continuamos a crescer. Quando cultivamos esta capacidade, a comparação perde força. E a inveja deixa de ser uma ameaça.

Quando a inveja permanece inconsciente, pode transformar-se em ressentimento, em crítica, em competição, em sofrimento. Mas quando é observada com honestidade, pode transformar-se em algo muito diferente. Pode tornar-se autoconhecimento, revelar desejos esquecidos, mostrar potenciais adormecidos, indicar o próximo passo da nossa evolução.

Talvez por isso Jung afirmasse: "Tudo aquilo que nos irrita nos outros pode conduzir-nos a uma compreensão de nós próprios."

A inveja não é uma falha de caráter. É uma emoção humana. E, quando escutada com consciência, pode deixar de ser um obstáculo para se tornar uma professora. Porque, muitas vezes, aquilo que invejamos nos outros não é algo que nos falta. É algo que está à espera de nascer dentro de nós.

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