A mulher que foste já não é necessariamente a mulher que precisas de continuar a ser.
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| Imagem: Pinterest |
Há momentos na vida em que começamos a sentir uma espécie de estranheza em relação a nós próprias. Continuamos a reconhecer o nosso rosto, a nossa casa, o nosso trabalho, as pessoas que fazem parte da nossa vida, mas existe qualquer coisa que deixou de encaixar. Não sabemos exatamente quando aconteceu, nem conseguimos apontar necessariamente um acontecimento que justifique essa sensação. Apenas percebemos que aquilo que durante tanto tempo nos pareceu certo já não nos chega da mesma maneira.
Por vezes chamamos a isso crise. Outras vezes dizemos que estamos cansadas, desmotivadas ou insatisfeitas. Procuramos uma explicação concreta porque gostamos de compreender racionalmente aquilo que nos acontece. Mas há processos interiores que não começam na razão. Começam como uma inquietação, uma sensação no corpo, uma vontade difícil de explicar, um incómodo persistente que nos diz que alguma coisa precisa de ser olhada.
É possível que não estejas a perder-te. É possível que estejas a afastar-te, pouco a pouco, de uma versão de ti que durante muitos anos foi necessária.
Ao longo da vida construímos uma identidade a partir das nossas experiências, relações, escolhas e também das expectativas que aprendemos a cumprir. Na linguagem de Carl Jung, existe uma dimensão da personalidade que podemos compreender através da ideia de persona: a face que apresentamos ao mundo, os papéis que desempenhamos e a forma como aprendemos a funcionar dentro da sociedade.
A persona não é falsa. Ela é necessária. Precisamos de diferentes papéis para viver. Somos profissionais, mães, companheiras, filhas, amigas, cuidadoras, líderes, mulheres que trabalham e que assumem responsabilidades. O problema começa quando nos confundimos completamente com esses papéis e deixamos de saber quem somos para além deles.
Durante anos podemos ser reconhecidas precisamente por aquilo que fazemos pelos outros. Somos a mulher que aguenta, que resolve, que está presente, que não falha, que consegue conciliar tudo. E talvez até tenhamos orgulho nisso. Aprendemos a ser fortes porque a vida nos pediu força. Aprendemos a cuidar porque alguém precisava de nós. Aprendemos a adaptar-nos porque era a forma possível de seguir em frente.
Só que aquilo que um dia foi uma estratégia de sobrevivência ou adaptação pode, mais tarde, transformar-se numa prisão.
E talvez seja por isso que algumas mulheres chegam a determinada fase da vida e dizem: “Eu já não sei quem sou.”
Não é necessariamente porque perderam a identidade. Pode ser porque a identidade que construíram já não é suficientemente grande para conter a mulher em que se estão a transformar.
É aqui que começa um processo mais profundo.
Na psicologia analítica, Jung fala da individuação como um caminho de desenvolvimento através do qual vamos tornando-nos mais inteiros, aproximando-nos de quem somos para além das expectativas externas e das imagens que construímos sobre nós próprias. Não se trata de descobrir uma versão perfeita de nós. Trata-se, antes, de integrar partes que ficaram esquecidas, rejeitadas ou pouco desenvolvidas.
E este processo nem sempre é confortável.
Porque quando começamos a questionar a mulher que aprendemos a ser, encontramos também aquilo que ficou escondido.
Podemos descobrir raiva onde pensávamos que havia apenas paciência. Podemos encontrar tristeza por baixo de anos de competência. Podemos perceber que determinadas escolhas foram feitas mais pelo medo de desiludir do que por verdadeiro desejo. Podemos reconhecer uma necessidade de liberdade que durante muito tempo não nos permitimos sequer admitir.
É aqui que a sombra pode começar a aparecer.
Jung utilizou o conceito de sombra para falar das partes de nós que não reconhecemos ou que aprendemos a afastar da nossa consciência. Não são necessariamente partes “más”. São também qualidades, desejos, emoções e possibilidades que, por diferentes razões, não tiveram espaço para existir.
A mulher que sempre foi “boazinha” pode encontrar a sua assertividade. A que passou a vida a cuidar pode descobrir que também quer ser cuidada. A que aprendeu a controlar tudo pode encontrar dentro de si uma necessidade profunda de entrega. A que sempre procurou corresponder pode começar a sentir uma enorme vontade de desobedecer.
E isto pode ser desconcertante.
Porque nem sempre aquilo que emerge corresponde à imagem que construímos de nós próprias.
Mas talvez a transformação não aconteça quando conseguimos manter intacta a imagem que temos de nós. Talvez aconteça precisamente quando temos coragem de a questionar.
É por isso que determinadas fases da vida podem parecer tão confusas. Já não conseguimos viver completamente de acordo com a antiga imagem de nós, mas ainda não sabemos quem somos sem ela.
Estamos entre duas margens.
E esse lugar intermédio pode ser vivido como vazio, mas também pode ser um espaço de gestação.
Depois dos 40, muitas mulheres começam a confrontar-se com esta passagem. Não porque exista uma idade universal para a transformação, mas porque a própria vida começa a devolver-nos perguntas diferentes. O corpo muda. Os filhos crescem. Os pais envelhecem. Algumas relações transformam-se. A carreira pode deixar de ter o mesmo significado. O tempo começa a ser percebido de outra maneira.
E talvez surja uma pergunta que durante muitos anos esteve adiada: “Se eu já não tenho de viver apenas para responder às necessidades dos outros, o que é que quero para mim?”
Nem sempre sabemos.
E está tudo bem.
Existe uma tendência para querermos transformar imediatamente qualquer desconforto numa decisão. Queremos saber o que fazer, qual o próximo passo, qual o novo projeto, qual a nova versão de nós próprias. Mas há processos interiores que precisam primeiro de ser vividos antes de poderem ser traduzidos em escolhas.
Talvez seja necessário permanecer algum tempo na pergunta.
Escutar o que o corpo sente.
Perceber aquilo que nos irrita.
Observar aquilo que invejamos.
Reparar nas pessoas que admiramos e perguntar o que nelas desperta alguma coisa em nós.
Dar atenção aos sonhos, às imagens que surgem espontaneamente, às memórias que regressam, às vontades que parecem não ter explicação.
Porque aquilo que emerge de dentro nem sempre chega sob a forma de uma resposta clara. Às vezes chega como um desconforto.
O corpo pode ser uma das primeiras portas dessa escuta. Antes de conseguirmos explicar racionalmente que estamos cansadas de determinada forma de viver, o corpo pode já estar a manifestar tensão, agitação, dificuldade em descansar ou uma sensação persistente de esgotamento. Não devemos interpretar cada sintoma como uma mensagem psicológica nem ignorar questões de saúde, mas podemos aprender a olhar para o corpo também como parte da nossa experiência interior.
Durante demasiado tempo fomos ensinadas a separar corpo e mente. Como se pudéssemos pensar uma coisa e sentir outra, como se o corpo fosse apenas aquilo que transportamos enquanto cumprimos a nossa vida.
Mas não somos apenas pensamento.
Somos corpo, emoções, memória, imaginação, relações, história e também aquilo que ainda não conhecemos em nós.
Talvez seja por isso que, quando começamos verdadeiramente a escutar-nos, algumas certezas antigas deixam de parecer tão certas.
E isso pode assustar.
Porque existe uma espécie de luto associado a crescer. Precisamos, por vezes, de nos despedir de versões anteriores de nós. Da mulher que acreditava que tinha de conseguir tudo. Da mulher que precisava de aprovação. Da mulher que acreditava que ser necessária era a mesma coisa que ser amada. Da mulher que adiava constantemente os seus desejos para uma altura em que finalmente tivesse tempo.
Essa mulher não precisa de ser rejeitada.
Ela precisa de ser compreendida.
Foi ela que nos trouxe até aqui.
Talvez tenha feito escolhas que hoje não faríamos. Talvez tenha permanecido demasiado tempo em determinados lugares. Talvez tenha dito demasiados sins. Talvez tenha suportado mais do que gostaria de ter suportado.
Mas julgá-la agora com a consciência que temos hoje também não nos liberta.
Podemos olhar para ela com mais compaixão e perguntar: “O que é que esta mulher precisou de fazer para chegar até aqui?”
E depois podemos perguntar algo ainda mais importante:
“Será que ainda preciso de continuar a fazê-lo?”
Esta pergunta pode abrir uma porta.
Porque amadurecer não é simplesmente acumular anos, experiências ou responsabilidades. Pode ser também retirar camadas. Questionar identificações antigas. Deixar cair aquilo que já não corresponde à nossa verdade interior.
A alquimia, enquanto imagem de transformação, fala precisamente desta passagem de uma matéria para outra. Não através da destruição daquilo que fomos, mas através de um processo em que aquilo que existe é trabalhado, transformado e integrado.
Talvez a nossa própria vida seja assim.
Não precisamos de começar do zero.
Levamos conosco tudo o que vivemos. As feridas, os desejos, as perdas, as aprendizagens, as relações, os erros, os sonhos abandonados e aqueles que ainda continuam vivos. Tudo isso faz parte da matéria-prima da mulher que somos agora.
A questão talvez não seja “Quem quero ser daqui para a frente?”. Talvez seja “O que em mim está a pedir para nascer?” E esta é uma pergunta diferente. Não exige uma resposta imediata. Exige presença.
Talvez estejas numa fase em que já não queres ser tão disponível. Talvez estejas cansada de provar o teu valor. Talvez desejes trabalhar de outra forma, amar de outra forma, relacionar-te de outra forma ou simplesmente ter mais espaço para existir sem estares constantemente a desempenhar uma função.
Não significa que tenhas de abandonar tudo. Significa que podes começar a escutar.
A mulher que foste continua dentro da tua história, mas não precisa de ser a única mulher autorizada a conduzir a tua vida.
Existe uma parte tua que talvez tenha ficado à espera de espaço. Uma parte menos adaptada, menos preocupada em agradar, mais intuitiva, mais inteira. Não necessariamente mais “forte”, mas talvez mais consciente daquilo que é e daquilo que já não quer ser.
Encontrá-la pode ser desconfortável, mas também pode ser profundamente libertador.
Talvez não estejas perdida. Talvez estejas a atravessar aquele território estranho em que uma identidade antiga começa a perder força e uma nova relação contigo própria ainda está a formar-se.
Não precisas de ter todas as respostas.
Podes começar por prestar atenção àquilo que já não consegues ignorar.
Àquilo que o teu corpo te mostra.
Àquilo que te incomoda.
Àquilo que desejas.
Àquilo que repetidamente aparece nos teus pensamentos.
Àquilo que, apesar de todos os “deverias”, continua a chamar por ti.
Porque talvez a mulher que foste tenha cumprido uma missão importante: ajudar-te a chegar até aqui.
Mas a próxima etapa da tua vida pode pedir-te outra coisa.
Pode pedir-te menos representação e mais presença. Menos obrigação e mais consciência. Menos necessidade de corresponder e mais disponibilidade para escutar.
Pode pedir-te que deixes de perguntar quem esperam que sejas e comeces, lentamente, a descobrir quem és quando ninguém está a olhar.
E talvez seja aí que começa uma verdadeira alquimia interior.
Não em tornar-te outra pessoa.
Mas em voltares a ti — desta vez, com mais consciência, mais inteireza e mais liberdade.
A mulher que foste trouxe-te até aqui.
Agora talvez seja tempo de conhecer a mulher que está a nascer em ti.


