«Esta não sou eu»: quem sou eu no meio da minha própria metamorfose?
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| Imagem IAM AI ART (Alexander Vladykin) @pinterest |
Sobre os 49 anos, as mudanças que não reconheço em mim e a coragem de procurar respostas.
Há dias em que olho para mim e penso: esta não sou eu.
Tenho 49 anos de idade cronológica, mas, por dentro, não me identifico necessariamente com esse número. Não sinto que a idade que aparece no documento explique quem sou, o que sinto ou aquilo em que me estou a transformar. E, no entanto, há momentos em que também não me reconheço na mulher que vejo ao espelho. Estou mais irritada, tenho menos paciência. Sinto-me sem força, constantemente cansada, como se até as coisas mais simples exigissem de mim um esforço maior do que aquele a que estava habituada. Há dias em que parece que não tenho energia para ser quem sempre fui e isso inquieta-me, porque não é apenas o cansaço. É a sensação de que alguma coisa mudou em mim e de que ainda não consegui perceber exatamente o quê.
Ao longo da vida, vamos construindo uma ideia de quem somos. Sabemos, ou julgamos saber, como reagimos, do que gostamos, o que nos motiva, o que conseguimos suportar. Criamos rotinas, assumimos responsabilidades e aprendemos a funcionar dentro da vida que construímos. Até que, um dia, alguma coisa deixa de encaixar.
Aquilo que antes fazíamos sem pensar começa a pesar, a paciência parece diminuir, a motivação desaparece, a cabeça fica envolta numa espécie de neblina e torna-se mais difícil organizar pensamentos, tomar decisões ou simplesmente sentir entusiasmo.
E surge a pergunta: Quem sou eu neste momento?
Será que mudei?
Será que estou cansada de viver da mesma maneira?
Será que há partes de mim que já não cabem na vida que construí?
Ou será que há outras razões para me sentir assim?
Ainda não tenho todas as respostas. E talvez uma das coisas mais difíceis desta fase seja precisamente aceitar que não consigo compreender tudo de imediato.
Durante muito tempo, podemos habituar-nos a ouvir as nossas obrigações antes de ouvirmos o nosso corpo. Continuamos porque é preciso, resolvemos porque alguém tem de resolver, cuidamos, organizamos, trabalhamos e avançamos, mesmo quando sentimos que estamos a chegar ao limite.
Mas o corpo não é uma máquina.
O cansaço persistente, as alterações do sono, a irritabilidade, as dificuldades de concentração e as mudanças emocionais merecem atenção. Podem ter diferentes causas, incluindo alterações hormonais, questões físicas, sobrecarga emocional ou uma combinação de fatores. Por isso, não quero interpretar automaticamente tudo o que sinto como uma crise de identidade ou uma transformação espiritual.
Nem tudo precisa de receber um significado simbólico. Algumas coisas precisam, antes de mais, de ser avaliadas e cuidadas.
Foi por isso que procurei a minha médica de família. Faço terapia psicológica e recorro também à terapia energética, que integra a minha forma pessoal de cuidar de mim. São dimensões diferentes, que não substituem umas às outras.
Quero compreender o que se passa comigo, cuidar do meu corpo, olhar para o meu mundo emocional e encontrar formas de atravessar esta fase com mais consciência. Não quero ignorar os sinais. Mas também não quero transformar cada sinal numa explicação definitiva. Quero dar-me a oportunidade de perceber.
Ao mesmo tempo, há um trabalho interior que continua.
Há momentos em que certas inseguranças regressam, em que volto a questionar a minha imagem, o meu valor, as minhas escolhas e o lugar que ocupo no mundo. Pergunto-me se pertenço, se estou no caminho certo se aquilo que construí continua a fazer sentido para mim. E, por vezes, reconheço padrões antigos: a necessidade de corresponder, de fazer mais, de mostrar que consigo, de não desiludir.
Talvez algumas destas respostas tenham sido construídas há muitos anos. Talvez outras tenham surgido ao longo das experiências que vivi. O que sei é que, quando abrando o suficiente para olhar para elas, começo a perceber que nem tudo aquilo que faço hoje corresponde necessariamente ao que quero.
Há hábitos que me protegeram no passado, mas que agora me podem limitar. Há formas de reagir que aprendi e repeti durante tanto tempo que quase se tornaram parte da minha identidade. E há perguntas que já não consigo adiar.
O que é verdadeiramente meu?
E o que continuo a fazer apenas porque me habituei a fazê-lo?
Não quero romantizar o sofrimento, nem acreditar que precisamos de chegar ao limite para mudar, mas reconheço que o desconforto me tem levado a prestar atenção a aspetos da minha vida que, durante muito tempo, ficaram em segundo plano.
Tenho pensado nas máscaras que uso, nas expectativas que ainda tento cumprir e nas situações em que me afasto de mim própria para manter tudo a funcionar.
Tenho pensado na liberdade, na autoconfiança, na clareza de que preciso para tomar decisões mais alinhadas com aquilo que sou hoje e também na importância de voltar a fazer coisas de que gosto. Não apenas aquilo que é útil, não apenas aquilo que tem um objetivo ou produz resultados.
Fazer algo porque me dá prazer, porque me desperta curiosidade, porque me faz sentir viva.
Pintar. Estar na natureza. Ouvir música. Aprender. Criar. Ter tempo para simplesmente existir, sem transformar cada momento numa tarefa.
Talvez precise de recuperar partes de mim que ficaram esquecidas no meio das responsabilidades, ou talvez esteja a descobrir partes que ainda não conhecia.
Uma das coisas que mais me inquieta é perceber como podemos continuar a viver em piloto automático, mesmo quando já não nos sentimos bem na vida que estamos a levar.
Sabemos o que temos de fazer, cumprimos horários, respondemos às necessidades dos outros, repetimos rotinas. E vamos adiando aquilo que sentimos, aquilo que desejamos e aquilo que sabemos que precisa de mudar. Por vezes, até reconhecemos o que nos faria bem, mas encontramos razões para não começar.
Não temos tempo, não temos energia, ainda não é o momento certo, primeiro, precisamos de resolver mais uma coisa. E assim continuamos.
Não porque não queiramos mudar, mas porque mudar exige espaço, disponibilidade e, muitas vezes, a coragem de enfrentar o que temos evitado. É aqui que começo a questionar os meus próprios mecanismos de autossabotagem.
Onde estou a impedir-me de avançar?
Onde continuo a escolher o que conheço, mesmo quando já não me faz bem?
Onde estou à espera de voltar a sentir-me como antes para começar a cuidar de mim?
Talvez não precise de recuperar exatamente a mulher que fui, talvez precise de conhecer a mulher que sou agora.
Durante muito tempo, podemos pensar no autocuidado como algo que fazemos quando sobra tempo. Mas, nesta fase, tenho sentido a importância de o olhar de outra forma. Cuidar de mim é procurar ajuda quando preciso, é respeitar o meu corpo e não exigir dele uma energia que não tenho, é olhar para as minhas emoções sem me julgar por senti-las, é procurar compreender os meus padrões, reconhecer os meus limites e aprender a dizer não, é permitir-me experimentar, mudar de ideias e descobrir novos interesses, é aceitar que posso precisar de diferentes formas de apoio e que não tenho de encontrar todas as respostas sozinha.
A terapia psicológica permite-me ter um espaço de reflexão e acompanhamento emocional. A terapia energética faz parte do meu percurso pessoal de cuidado, mas não substitui a avaliação médica nem o acompanhamento psicológico.
Não procuro uma solução mágica. Procuro recursos, compreensão e formas mais conscientes de estar comigo própria. E, sobretudo, quero deixar de tratar o meu cansaço como uma falha de carácter.
Não sou menos capaz por precisar de parar. Não sou menos forte por reconhecer que alguma coisa não está bem. E não tenho de conseguir tudo sozinha para provar o meu valor.
Tenho 49 anos. Não me identifico inteiramente com a idade que o calendário me atribui, mas também não consigo ignorar que estou a atravessar uma fase de mudança. Ainda não sei se lhe devo chamar metamorfose, transição, crise ou simplesmente vida a acontecer. Sei que me sinto diferente.
Sei que há dias em que me falta a paciência, a força e a energia que gostaria de ter. Sei que quero compreender o que está a acontecer, cuidar de mim e recuperar a liberdade de fazer escolhas conscientes. E sei que não quero passar o resto desta fase a tentar regressar a uma versão antiga de mim apenas porque essa versão me era familiar.
Quero perceber o que precisa de atenção, o que precisa de descanso, o que precisa de mudar e o que ainda quero levar comigo, sem pressa de encontrar uma definição, sem transformar cada dificuldade numa lição, sem exigir que tudo faça sentido já.
Talvez a transformação não seja tornar-me numa mulher completamente diferente, talvez seja aprender a escutar-me de outra maneira, a reconhecer os meus limites sem me diminuir, a cuidar de mim sem culpa, a escolher com mais liberdade, confiança e clareza e a aceitar que posso estar a descobrir quem sou, mesmo depois de tantos anos a acreditar que já me conhecia.
Porque, talvez, a pergunta não seja apenas «o que se passa comigo?».
Talvez seja também:
«Do que preciso nesta fase da minha vida, e como posso começar a dar espaço a isso?»
Não para me tornar noutra mulher, mas para viver com mais liberdade, autoconfiança e clareza enquanto descubro quem sou agora.🗝️


